Após um primeiro dia sensacional do nosso tour pelo Salar de Uyuni, o segundo dia nos reservou maravilhosas surpresas. Dei maiores informações sobre este tour no post Salar de Uyuni: como é o tour. Fizemos o passeio de 4 dias e 3 noites com a empresa Cruz Andina, saindo de San Pedro do Atacama (Chile) e retornando para a mesma cidade.

Vamos ao relato.

Este era o dia do tour ao Salar de Uyuni do qual eu não sabia o que esperar. Vi relatos de pessoas que conheceram as Lagunas Honda e Hedionda, Árbol de Piedra, etc, mas o roteiro com a Cruz Andina incluía localidades diferentes. Talvez eu tenha visto relatos de pessoas que passaram pelos mesmos lugares que nós e não tenham dado muito destaque – ou talvez eu é que não tenha dado importância quando li a respeito. Já adianto que foi surpreendente – no melhor sentido.

Acordamos cedinho, tomamos nosso café da manhã e terminamos de guardar nossas coisas para seguir viagem. Enquanto eu e Rodrigo enfiávamos nossas últimas coisas no mochilão, Volmério (nosso amigo e companheiro de viagem) estava descansadamente com tudo espalhado pelo quarto, achando que a noite seguinte também seria lá. Foi se dar conta quase quando estávamos saindo do quarto com todos nossos pertences, então guardou tudo rapidinho 😀 . Bagagens acomodadas na parte de cima do 4×4, partimos.

Ter um grupo legal para compartilhar neste tour é questão de sorte, mas faz muita diferença. Um dos pontos importantes é o rodízio de lugares nos assentos do carro. Pela sua configuração, uma pessoa vai comodamente em um assento individual ao lado do motorista, depois o banco do meio tem três lugares (fica justo, as mochilas tem que ir no colo ou no chão entre os pés), e no banco bem de trás vão duas pessoas (ficam com mais espaços nos lados, mas o banco é mais alto e por isso quem está lá fica com as pernas encolhidas). Felizmente nossas companheiras eram muito gente boa e passamos o tour inteiro trocando os lugares e nos revezando nos lugares mais e menos confortáveis.

O primeiro lugar que conhecemos neste dia foi logo ao lado do povoado de Mallcu Villamar. Uma montanha rochosa onde no alto existem resquícios de construções usadas por antigos habitantes, pertencentes à tribo Lípez. Existem até algumas pinturas nos paredões atribuídas a esse povo.

Pintura no paredão.
Valle de Rocas.
Tour Salar de Uyuni - segundo dia.
Até o nosso guia, que já deve ter visto isto dezenas de vezes, parou para contemplar o visual.
Construções.

Caminhamos calmamente pelo alto dessa montanha, apreciando a imensidão ao redor e, de vez em quando, alguma viscacha chamava nossa atenção. Elas são muito fofinhas e ágeis, pulando de maneira muito engraçada de pedra em pedra.

Tour Salar de Uyuni - segundo dia.
Viscacha. Todas que vimos eram assim fofinhas e com carinha de sono. 🙂

Depois, passamos algum tempo parando em diferentes pontos desta região, que é chamada de Valle de Rocas. A cada parada, uma rocha com formato e tamanho diferentes, algumas com formatos inusitados, como por exemplo a conhecida como Copa do Mundo. O Gilmar brincou que esta é a única Copa do Mundo que a Bolívia tem. 🙂

Tour Salar de Uyuni - segundo dia.
Nosso grupo na Copa del Mundo; e o Rodrigo e o Volmério “erguendo a taça”. 🙂

Um dos lugares mais legais do Valle de Rocas foi a Plaza Italia ou Italia Perdida – dizem que o nome foi dado por causa de um turista italiano que perdeu-se ali enquanto explorava a região de bicicleta. Alguns subiram nos rochedos – a subida não é das mais tranquilas, mas o visual é demais.

Tour Salar de Uyuni - segundo dia.
Eu e Nar lá no alto, …
… Rodrigo no meio do caminho, Roberta e Juliana lá embaixo em frente ao carro, e Volmério beeem pequeninho à esquerda.

Quando enjoamos de ver tanto pedregulho 😀 , seguimos para a próxima parada: a região de Catal, onde se encontra a Laguna Negra.

O Gilmar nos mostrou da estrada a construção onde ele nos serviria o almoço, e uns minutos depois nos “largou” em um lugar no meio do nada, e disse: vocês seguem por aqui, sempre à direita, caminhando por uns 30 minutos, até chegar àquela casinha que mostrei para vocês, quando vocês chegarem lá estarei com o almoço pronto. Entrou no carro e se foi 😮 .

Nos olhamos e… bom, o jeito era começar a caminhar. 😀

O lugar era um tipo de pequeno vale, com uma vegetação “fofa” e bem verde, entre duas paredes de pedras de cerca de 10 metros de altura. Vários filetes de água corriam pelo meio da grama, e centenas de alpacas pastavam ali tranquilamente.

Aquele lugar arrebatou nós todos! Fomos caminhando calados, ouvindo só o suave barulho de água correndo, enquanto as alpacas seguiam se alimentando sem se importar com a nossa presença. Foi incrível! Em algum momento quebramos o silêncio e comentamos o quanto aquele lugar inesperado era impressionante, e alguém disse que aquilo ali se aproximava da sua ideia de Jardim do Éden. É uma bela maneira de descrever.

Tour Salar de Uyuni - segundo dia.

Passamos pela Laguna Negra, onde havia outras poucas pessoas, distantes o suficiente para não disturbarem nosso momento. O sentimento misturava a surpresa por estar em um cenário que não imaginávamos existir na Bolívia com uma certa adrenalina por estarmos ali “abandonados”, por nossa conta.

Evidentemente o Gilmar não nos largaria ali se não tivesse a certeza de que era impossível alguém se perder, e, exatamente como ele falou, cerca de 30 minutos depois chegamos à casa onde ele nos esperava com o almoço servido.

Refeição simples e gostosa, feita em uma construção mais simples ainda. Vimos somente uma senhora que aparentemente mora ali e disponibiliza seu espaço em troca de algum dinheiro. Ela também cobrou umas moedas para usarmos o seu banheiro. Vi ainda que o Gilmar doou para ela o que sobrou do nosso almoço. Impressionante ver como existem pessoas que vivem assim, no meio do nada, sobrevivendo com muito pouco.

Durante a tarde, passamos bons períodos na estrada. Paramos para ver do alto o Cânion do rio Anaconda. Para poder ver bem o rio de verde intenso e cheio de curvas – daí seu nome – é preciso chegar na beira do penhasco, dá um pouco de receio. Mas é muito bonito.

Tour Salar de Uyuni - segundo dia.

Mais um bom trecho de estrada e chegamos ao povoado de Julaca, onde há uma antiga estação de trens. Inclusive no momento em que chegávamos ia passando um comprido trem de cargas. A parada aqui é para usar o banheiro, fazer algum lanche ou tomar alguma coisa. Havia alguns tipos de cervejas feitas com ingredientes locais e provamos duas: a com quinoa (aliás, passamos por dezenas de campos de plantações de quinoa durante este tour) e a com folhas de coca. Não gostei muito da de folhas de coca, mas a de quinoa era muito boa, eu tomaria novamente sem dúvidas.

Tour Salar de Uyuni - segundo dia.
Um enorme trem de cargas passando; um vagão antigo abandonado; o bar onde bebericamos; e as cevas de quinoa e de folhas de coca.

Partimos para o último trecho de estrada do dia, até a localidade de Villa Martin, onde pernoitamos em um hotel de sal.

“Como assim, hotel de sal?”. Isso mesmo, tudo é feito de blocos de sal: as paredes, as mesas, as camas, e todo o possível. Essa localidade está nas margens do salar e eles aproveitam a extração dos blocos de sal para fazer estas construções que ficam bem interessantes para nós, turistas.

Hotel de sal.

Essa hospedagem era muito melhor do que a da primeira noite, e eu e o Rodrigo até ficamos em um quarto privativo. Nossos quatro colegas compartilharam um quarto que comporta até seis pessoas. O banho – como sempre, pago – era limitado a 7 minutos por pessoa. Ninguém arriscou ficar mais tempo que isso para ver se eles cortavam a água 😀 . Pelo menos o chuveiro era muito bom, bastante água bem quente.

Como os recursos lá são escassos, para secar meu cabelo tive que pagar mais uma taxa de 10 bolivianos pelo uso da eletricidade. Outras brasileiras que também estavam lá ficaram super felizes ao descobrir que eu tinha um secador de cabelos que poderia emprestar (o hotel não tem para empréstimo, não contem com isso), mas desistiram quando descobriram que tinham que pagar mais. Eu paguei e fiquei muito satisfeita de ter carregado meu secadorzinho compacto na viagem, pois eu é que não queria ficar com o cabelo molhado naquele frio. Achei um pouco mesquinho não querer pagar 10 bolivianos (na época, cerca de 6 reais), como se fosse fazer muita diferença no bolso de um(a) viajante – enquanto que para os bolivianos que vivem lá, faz diferença.

Depois de todos instalados e de banhos tomados, já era noite fechada. Saí para a rua para tentar ver os arredores da hospedagem, mas estava realmente muito frio e com muito vento. O céu estava incrivelmente estrelado, mas não aguentei muito tempo ali e entrei.

A janta foi servida e nesse dia estava incluso uma garrafa de vinho boliviano. Como sempre, comida bem caprichada. Desconfiamos do vinho, mas era bom. Claro, sempre é bom colocar as coisas em perspectiva: estávamos em um pequeno povoado do altiplano na Bolívia, não dava para esperar que fosse um Bourdeaux, mas era bom.

A janta estava saborosa, o papo estava bom e até cogitamos ver quanto eles nos cobrariam por mais uma garrafa de vinho, mas decidimos nos recolher pois o dia seguinte começava de madrugada rumo ao principal objetivo da viagem: conhecer, finalmente, o Salar de Uyuni. Eba!

Gastos do dia (bolivianos):

  • Uso do banheiro na Laguna Negra e em Julaca: 3
  • Cervejas em Julaca (cada): 10
  • Banho no Hotel de Sal: 10
  • Uso do secador de cabelos no Hotel de Sal: 10

Próximo post: Tour Salar de Uyuni – terceiro dia: o Salar.


Nossa viagem pelo Salar de Uyuni aconteceu entre 25 e 28 de janeiro de 2018.


O blog fica muito melhor e mais completo com tua participação. Tens alguma sugestão para dar, alguma informação a acrescentar, alguma dúvida? Deixa nos comentários 😉